Sobre a história de Plutão

Tenho pensado frequentemente em Plutão e na crise de identidade que ele atravessa há alguns anos. Com o devido respeito aos estudiosos do universo, permitam-me narrar sua história:


“Plutão passou os últimos oitenta anos de sua descoberta acreditando que era um planeta. Foi o que haviam lhe dito. O nono planeta do nosso sistema solar, o mais distante do Sol. Mas ainda um planeta. Plutão tinha irmãos mais famosos, mais exuberantes, mais misteriosos. Irmãos que foram até protagonistas de alguns filmes. Plutão não se importava com isso. Bastava saber que era um planeta também, que era igual a eles. Apenas um pouco menor, um pouco mais distante. Nem se incomodava de ser constantemente representado por uma bolinha de gude em trabalhos escolares. O que importava é que ele nunca estaria de fora na foto da família.

Em 2006, o primeiro baque: um grupo de astrônomos descobriu um corpo distante orbitando em nosso Sistema Solar. O corpo possuía um diâmetro maior do que o de Plutão. Não quiseram acrescentar um membro à família. Preferiram rebaixar Plutão. E a crise de identidade desse pobre planeta começou. Foi humilhado publicamente. Não era mais um planeta. Jornais e revistas estampavam sua foto, anunciando a nova descoberta. Os astrônomos ainda tentaram melhorar a situação. Criaram uma nova categoria: planeta-anão, e nela colocaram Plutão e o tal corpo encontrado, que por acaso ou ironia, ganhou o nome da deusa grega da discórdia: Éris.

Foi preciso muitos livros de auto-ajuda e terapia para Plutão superar o fato de não ser quem ele achava que era a vida toda. O apoio de Éris ajudou. Com o tempo, foi se habituando a nova existência. Os irmãos também tentavam consolá-lo, diziam-lhe o tempo todo: o que é isso, Plutão, para nós você ainda é o mesmo, não ligue para o que andam dizendo! Marte, que sempre foi meio esquentado, até ameaçou vir a público para contar uns segredinhos a seu próprio respeito e colocar aqueles caras metidos em seu devido lugar, mas foi impedido pelos outros planetas, que não queriam criar mais polêmicas.

O tempo passou, as feridas foram se cicatrizando. Plutão começou a viver melhor, e foi recuperando sua auto-estima. Engatou até um romance com Éris. Passou a se sentir mais importante, mais significativo. Percebeu que poderia ser até mais feliz sendo um planeta anão do que um planeta do primeiro escalão. Ao lado de Éris, ele era alguém, e não mais uma bolinha de gude. Um borrão na foto.

Quando tudo estava definitivamente entrando nos eixos, um novo grupo de cientistas, dessa vez do Observatório de Paris, trazem à tona uma nova pesquisa onde garantem que Éris é menor do que Plutão, e não o contrário, como se pensava. Questionam o rebaixamento do ex-nono planeta. Nova polêmica foi lançada. Cogita-se trazer Plutão novamente para o posto de planeta da primeira divisão. Os jornais voltam a estampar a foto de Plutão e de Éris, que por sua vez, nunca se importou com o seu tamanho ou com o tamanho do companheiro. O mesmo já começa a demonstrar os primeiros sinais de que a tal ferida não estava tão cicatrizada assim e já há rumores de que a relação dos dois foi balançada. Plutão novamente está perdido, sem saber quem ele é.”

Perdoem-me essa historinha de qualidade duvidosa sobre a triste história de Plutão. O pobrezinho bem que merecia um texto melhor e mais elaborado. Quem sabe algum roteirista de cinema talentoso ou algum executivo da Pixar não se anima a contar sua história, e enfim Plutão, ainda que meio perdido, passa a ter um blockbuster para chamar de seu. O posto de sua agente já é meu, por favor.

Um comentário:

  1. Acho q as coisas vão esquentar quando plutão cruzar com Netuno, o azulão gigante. Novamente próximo, o antigo amigo vai realçar as lembranças do pequeno,e talvez a atração gravitacional de Éris não seja o suficiente...
    torço pelo relacionamento dos dois

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